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Categoria: Sono infantil

Seu bebê passa boa parte do dia dormindo. A casa escurece, todo mundo começa a se preparar para descansar e, de repente, ele parece estar pronto para começar o dia. Mama. Fica acordado. Quer colo. Adormece por pouco tempo. Acorda novamente. E surge aquela frase conhecida: “Esse bebê trocou o dia pela noite.”

Só que talvez ele não tenha trocado nada.Nos primeiros meses de vida, o organismo do bebê ainda está aprendendo uma coisa que para os adultos parece óbvia: existe um dia e existe uma noite. E entender como esse aprendizado acontece muda bastante a maneira de enxergar o sono do recém-nascido. O nosso corpo também tem um relógio. O organismo humano não funciona da mesma maneira durante todas as horas do dia. Sono, estado de alerta, temperatura corporal e liberação de alguns hormônios apresentam ritmos que se organizam aproximadamente ao longo de 24 horas.

Esse sistema é conhecido como ritmo circadiano. No cérebro, uma pequena região chamada núcleo supraquiasmático participa da coordenação desse relógio biológico. E existe uma pista ambiental especialmente importante para mantê-lo sincronizado: a luz. Quando nossos olhos percebem a alternância entre claridade e escuridão, essa informação ajuda o cérebro a reconhecer em que momento do ciclo de 24 horas estamos.

Para um adulto com o ritmo circadiano estabelecido, essa organização acontece todos os dias quase sem percebermos. Com um recém-nascido, a história é diferente. O bebê não nasce com o relógio biológico igual ao de um adulto. Durante a gestação, o bebê recebe diversas pistas rítmicas vindas do organismo materno.

Depois do nascimento, ele passa a precisar desenvolver e sincronizar progressivamente seus próprios ritmos com o ambiente externo. Isso não acontece de um dia para o outro. Nas primeiras semanas, o sono tende a estar distribuído em vários períodos ao longo das 24 horas, muito influenciado também pelas necessidades de alimentação.

Por isso, esperar que um recém-nascido reconheça naturalmente que 3 da manhã é hora de permanecer dormindo pode significar esperar uma capacidade que ainda está amadurecendo. Não é teimosia. Não é necessariamente falta de rotina. E não significa automaticamente que existe alguma coisa errada com aquele bebê. Existe um sistema biológico em desenvolvimento.

E onde entra a melatonina?

Quando se fala em sono, provavelmente você já ouviu falar dela. A melatonina é um hormônio envolvido na sinalização biológica de noite e na organização do ritmo sono-vigília. Nos adultos, sua produção aumenta em condições adequadas de escuridão durante a noite.Nos bebês, entretanto, o padrão circadiano de produção de melatonina não nasce completamente estabelecido. Ele se desenvolve progressivamente nos primeiros meses de vida. E esse é um detalhe importante. Às vezes esperamos que o bebê apresente um padrão de sono semelhante ao adulto antes que os mecanismos envolvidos nessa organização estejam suficientemente maduros.

Então luz durante o dia pode ajudar?

Aqui a ciência começa a virar prática. Se luz e escuridão são pistas importantes para o relógio biológico, criar alguma diferença entre o ambiente diurno e noturno pode ajudar o bebê a receber essas informações. Isso não significa estabelecer uma rotina militar. Muito menos impedir o bebê de dormir durante o dia. Significa simplesmente permitir que o dia pareça dia e a noite pareça noite. Durante o dia, quando possível, o ambiente pode receber luz natural. As cortinas não precisam permanecer fechadas durante todas as sonecas. Os sons habituais da casa também não precisam desaparecer completamente. Nos períodos em que o bebê estiver naturalmente acordado, pode haver conversa, contato e interação adequados à idade. A mensagem ambiental é simples: agora é dia.

E durante a noite?

A lógica muda. Mamadas e trocas de fralda continuam acontecendo quando necessárias. O objetivo não é ignorar as necessidades do bebê para “ensiná-lo a dormir”. É apenas evitar transformar cada despertar noturno em um período cheio de estímulos. Quando possível, vale manter iluminação mais baixa, falar menos, evitar brincadeiras e realizar os cuidados necessários de maneira tranquila. Não porque isso fará um recém-nascido dormir a noite inteira. Mas porque cria contraste. Durante o dia há mais luz e interação. Durante a noite há menos luz e menos estímulo. Com o amadurecimento do organismo, essas diferenças ajudam a fornecer pistas temporais ao cérebro.

Mas se ele dormiu mal à noite, não é melhor deixar tudo escuro durante o dia?

Essa parece uma solução lógica. O bebê passou a madrugada acordado. Pela manhã finalmente dormiu. Então fechamos a cortina, escurecemos completamente o quarto, pedimos silêncio e tentamos reproduzir a madrugada para que ele “recupere” o sono. Só que existe uma diferença importante entre permitir que o bebê durma e apagar todas as pistas ambientais de que agora é dia. O recém-nascido precisa dormir bastante e suas sonecas devem ser respeitadas. Mas isso não exige necessariamente transformar todo sono diurno em uma noite artificial. Especialmente para famílias enfrentando uma grande inversão entre sono diurno e vigília noturna, vale observar se existe contraste suficiente entre os dois períodos.

Então devemos mantê-lo acordado durante o dia?

Não. E esse talvez seja um dos pontos mais importantes desta conversa. Se o objetivo é ajudar o bebê a diferenciar dia e noite, pode parecer tentador pensar: “Vou impedir que ele durma agora para chegar cansado à noite.” Mas um recém-nascido precisa de muitas horas de sono distribuídas ao longo do dia e da noite. Privá-lo deliberadamente de sono não é uma estratégia adequada para organizar seu relógio biológico. A proposta não é fazer o bebê acumular cansaço. É oferecer pistas diferentes enquanto ele vive normalmente cada período do dia. Ele pode dormir durante o dia. A diferença é que esse sono acontece em um mundo onde existe luz, atividade e interação nos períodos de vigília. Não existe um botão para organizar o sono Também é importante ajustar a expectativa do outro lado. Abrir as cortinas pela manhã e diminuir as luzes à noite não fará um recém-nascido passar a dormir oito horas seguidas. O desenvolvimento do sono depende de maturação neurológica, alimentação, idade, características individuais e diversos outros fatores. As pistas ambientais ajudam a sincronizar um sistema que está amadurecendo. Elas não substituem esse amadurecimento. Por isso, duas famílias podem adotar rotinas semelhantes e observar padrões de sono bastante diferentes. Rotina pode ajudar. Controle absoluto sobre o sono do bebê não existe.

O que pode ser feito na prática?

Em vez de tentar “consertar” o sono de um recém-nascido, algumas atitudes simples podem ajudar a deixar dia e noite mais diferentes:

Durante o dia

• permita a entrada de luz natural no ambiente; • mantenha os sons habituais da casa em níveis confortáveis; • aproveite os períodos naturais de vigília para conversar e interagir; • respeite as necessidades de sono e alimentação do bebê.

Durante a noite

• prefira iluminação baixa durante os cuidados; • mantenha mamadas e trocas mais tranquilas; • evite estímulos desnecessários, telas e brincadeiras durante os despertares; • depois dos cuidados necessários, favoreça novamente um ambiente propício ao sono.

Não é preciso executar tudo perfeitamente. O cérebro não precisa de uma casa cenográfica. Precisa de pistas consistentes ao longo do tempo.

E quando procurar ajuda?

Nem toda dificuldade de sono deve ser explicada simplesmente pela imaturidade do relógio biológico. Se houver dificuldade para respirar, alterações importantes na alimentação, baixo ganho de peso, episódios persistentes de choro ou aparente dor, sonolência excessiva, dificuldade incomum para despertar ou uma mudança importante no comportamento habitual do bebê, vale conversar com o pediatra. Também é importante considerar a idade e as necessidades individuais de cada criança. O objetivo de entender a fisiologia não é normalizar qualquer situação. É evitar transformar em problema aquilo que pode fazer parte do desenvolvimento, sem deixar de reconhecer quando alguma coisa merece avaliação. Talvez ele não tenha trocado o dia pela noite. Da próxima vez que alguém disser que o bebê “trocou o dia pela noite”, vale lembrar: para trocar, primeiro ele precisaria saber qual é qual.

Nos primeiros meses, essa diferenciação ainda está sendo construída. Pouco a pouco, o cérebro começa a reconhecer as pistas que se repetem todos os dias. Luz. Escuridão. Interação. Silêncio. Rotina. E, junto com a maturação do próprio organismo, essas informações ajudam a organizar o relógio biológico. Então talvez a pergunta não precise ser: “Como fazer esse bebê entender que é hora de dormir?” Pode ser algo muito mais simples: “Como podemos ajudar o ambiente a mostrar para ele que agora é dia e, depois, que chegou a noite?” Porque o bebê não precisa aprender a dormir. Mas seu organismo ainda tem muito a aprender sobre quando dormir.

O Que Ninguém Te Conta, a ciência da maternidade de um jeito prático. Porque o que já é difícil não precisa ser complicado.

Com carinho,

Cris da Mamakaya