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Categoria: Desenvolvimento infantil

Um dia você abraça seu filho e percebe uma coisa diferente. Aquele cheirinho de criança mudou. Depois de brincar, correr ou passar algumas horas fora de casa, aparece um odor nas axilas que até então não existia. E a primeira reação de muitos pais é: “Já começou a puberdade?” A resposta é: não necessariamente.

O aparecimento do odor corporal pode fazer parte de uma etapa do desenvolvimento chamada adrenarca, que não é exatamente a mesma coisa que o início da puberdade propriamente dita.  E entender essa diferença ajuda a saber o que pode ser uma mudança esperada do corpo e quando vale conversar com o pediatra.

Antes da puberdade, existe a adrenarca. Acima dos nossos rins existem duas pequenas glândulas chamadas suprarrenais. Entre suas várias funções, elas produzem hormônios chamados andrógenos adrenais. Durante a infância, a produção de alguns desses hormônios começa a aumentar progressivamente. Entre eles estão o DHEA e, principalmente como marcador dessa atividade, o DHEA-S. Esse processo recebe o nome de adrenarca e costuma ocorrer durante a infância, antes ou independentemente da ativação completa do sistema hormonal responsável pela puberdade. 

E é aí que começa uma confusão bastante comum. Adrenarca e puberdade não são exatamente a mesma coisa Quando falamos em puberdade propriamente dita, estamos falando de outro processo hormonal. O cérebro começa a ativar o chamado eixo hipotálamo-hipófise-gônadas, estimulando ovários ou testículos e levando ao desenvolvimento sexual progressivo.

Na adrenarca, a história é diferente. O aumento hormonal acontece principalmente nas glândulas suprarrenais. Por isso, uma criança pode apresentar manifestações relacionadas aos andrógenos adrenais sem que isso signifique, isoladamente, que todo o processo puberal tenha começado.  Essa diferença é particularmente importante quando aparece o famoso “cecê”.

Então, de onde vem o cheiro das axilas?

Aqui existe outra curiosidade. O suor recém-secretado não é simplesmente o “cecê” que sentimos. A pele das axilas abriga naturalmente diferentes microrganismos. Componentes presentes nas secreções da região podem ser metabolizados por essas bactérias, formando compostos voláteis responsáveis por parte do odor característico.

E a composição dessas secreções e da própria microbiota da pele muda conforme a criança cresce.Por isso, aquele cheiro que aparece depois de brincar ou praticar atividade física não significa que a criança esteja “suja”.

Pode existir uma mudança fisiológica acontecendo. Então odor corporal é normal na infância? Ele pode aparecer durante o desenvolvimento. A adrenarca costuma ocorrer no meio da infância e pode vir acompanhada de mudanças como odor corporal mais parecido com o adulto, maior oleosidade da pele, acne e surgimento de pelos pubianos ou axilares. 

Mas existe uma diferença importante entre adrenarca e adrenarca prematura. Quando sinais relacionados à ação dos andrógenos adrenais aparecem precocemente, especialmente antes dos 8 anos nas meninas ou 9 anos nos meninos, eles merecem ser discutidos com o pediatra. A avaliação não depende apenas do cheiro, mas da idade, do crescimento e dos demais sinais apresentados pela criança. Isso também não significa que toda criança com odor antes dessas idades tenha puberdade precoce. Significa que vale avaliar.

O cheiro sozinho significa puberdade precoce?

Não. Esse talvez seja o ponto mais importante deste artigo. Odor nas axilas isoladamente não permite concluir que uma criança entrou em puberdade precoce.

A Pediatric Endocrine Society diferencia, por exemplo, sinais relacionados à adrenarca de manifestações como desenvolvimento das mamas nas meninas ou aumento genital nos meninos, que podem indicar ativação do processo puberal verdadeiro e merecem avaliação médica quando aparecem precocemente.  O pediatra também pode considerar a velocidade de crescimento e outros achados antes de decidir se alguma investigação é necessária.

Então, em vez de perguntar apenas:“Tem cheiro?” A pergunta mais útil é:

“Que outras mudanças estão acontecendo e em que idade elas começaram?”

E se apareceu o odor, já pode usar desodorante?

Essa é geralmente a próxima dúvida. Se existe odor corporal suficiente para incomodar a própria criança ou fazer parte da rotina diária, o desodorante pode ser introduzido como um cuidado de higiene.

Materiais de orientação da Pediatric Endocrine Society e da American Academy of Pediatrics consideram os desodorantes úteis para o controle do odor corporal em crianças com adrenarca prematura e os descrevem como seguros. 

Isso não significa que toda criança precise começar a usar desodorante em determinada idade. Existe uma diferença entre “chegou aos X anos, precisa usar” e “surgiu uma necessidade, então podemos introduzir esse cuidado”.

A segunda abordagem faz mais sentido.Na escolha do produto, vale observar a faixa etária indicada, seguir as orientações de uso e interromper se houver irritação ou reação na pele. E talvez a conversa mais importante nem seja sobre o desodorante

Existe uma criança percebendo que seu corpo está mudando. E a forma como os adultos reagem pode influenciar a maneira como ela passa a enxergar essas mudanças.

“Você está fedendo.”

“Que cecê horrível.”

“Credo, vai tomar banho.”

Para um adulto, essas frases podem parecer brincadeira. Para uma criança começando a perceber o próprio corpo, podem virar vergonha. Talvez seja mais interessante dizer:

“Seu corpo está mudando e agora temos um cuidado novo para aprender.”

Banho. Higiene das axilas. Roupa limpa. Desodorante, quando necessário. Tudo isso pode ser apresentado como parte do desenvolvimento e da conquista de autonomia. Não como correção de algo “errado” no corpo.

Quando vale conversar com o pediatra?

O odor corporal merece ser analisado dentro do conjunto. Especialmente quando as mudanças aparecem cedo, o pediatra pode avaliar se existem outros sinais como surgimento precoce de pelos pubianos ou axilares, acne importante, crescimento muito acelerado, desenvolvimento das mamas, aumento genital ou outras mudanças corporais. Dependendo do caso, pode ser indicada avaliação por endocrinologista pediátrico. 

Existem ainda causas menos comuns de sinais androgênicos precoces, por isso não é adequado tentar diagnosticar adrenarca ou puberdade precoce apenas observando o odor em casa. 

Então apareceu o “cecê”. E agora?

Primeiro, não precisa transformar imediatamente esse cheiro em um diagnóstico de puberdade precoce. O corpo infantil não passa diretamente de “criança” para “puberdade” de uma hora para outra. Existem processos de maturação acontecendo no caminho. A adrenarca é um deles. O odor corporal pode ser uma das manifestações dessas mudanças. Quando ele aparece, podemos cuidar da higiene, introduzir novos hábitos de autocuidado quando necessários e observar o desenvolvimento da criança. E, principalmente, podemos fazer tudo isso sem transformar uma mudança fisiológica em motivo de constrangimento.

Porque talvez a pergunta não seja apenas: “Meu filho já está entrando na puberdade?”

Talvez também seja: “Como eu posso ajudá-lo a entender as mudanças do próprio corpo com naturalidade?” Essa conversa também faz parte de crescer.

O Que Ninguém Te Conta. A ciência da maternidade de um jeito prático. Porque o que já é difícil não precisa ser complicado.

Com carinho,

Cris da Mamakaya